Noergologia, a visão do mundo no século 21

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Noergologia é o Paradigma emergente das Ciências Humanas. Seus axiomas são: Ser humano é intencional; Pensamento-cérebro é sistema ativo e criador; cientista é holocentrado; Imaginação ativa e criadora é a qualidade humana mais essencial.
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terça-feira, 30 de junho de 2009

PENSAMENTO EPISTEMOLÓGICO DA NOERGOPEDAGOGIA

Noergologista Denize Teresinha Sucharski*

 

No ano de 1986, em Veneza, a UNESCO reuniu um grupo de pensadores, cujo intuito era questionar valores atuais e apresentar soluções para um futuro adequado às novas exigências da modernidade. Sob o título de “A Ciência Diante das Fronteiras do Conhecimento” o grupo apresentou o resultado que merece a atenção de todos os que se empenham para produzir mudanças em todos os aspectos nas sociedades humanas.

Declara-se então, neste documento, a necessidade de uma REVOLUÇÃO tal qual já aconteceu nas ciências fundamentais “devido à transformação que ela traz à lógica, à epistemologia e também, através das aplicações tecnológicas, à vida de todos os dias”. Assim é constatado um choque de paradigma, o novo mundo sendo visto com lentes que se utilizavam para olhar o velho mundo, “nova visão do mundo que emerge do estudo dos sistemas naturais e os valores que ainda predominam na filosofia, nas ciências do homem e na vida da sociedade moderna. Pois estes valores baseiam-se em grande parte no determinismo mecanicista, no positivismo ou no niilismo”. O enfoque é dramático que afirma: “Sentimos esta defasagem como fortemente nociva e portadora de grandes ameaças de destruição de nossa espécie”. Todo o conteúdo deste documento sugere que as ciências iniciem seu momento de revisão de paradigma, que se comece a pensar em “novas formas de conhecimento”, sugerindo um enfoque transdisciplinar pela utilização sistêmica pensamento-cérebro, de ambos os hemisférios do cérebro, enfatizando a importância também da imaginação e concomitantemente, eliminando o endeusamento do raciocínio lógico, “Reconhecemos a urgência da busca de novos métodos de educação que levem em conta os avanços da ciência, que agora se harmonizam com as grandes tradições culturais, cuja preservação e estudo aprofundado parecem fundamentais”.

A Noergologia, paradigma emergente das ciências humanas, (Bettoni, 1999), cuja proposta basilar é possibilitar ao cientista ser holocentrado, isto é, ultrapassando o mero conceito de homem, do status de mero expectador de si mesmo, um elemento passivo, não construtor de seu próprio destino, para um ser ativo e criador de si próprio, ou seja, altamente intencional e criativo, abrindo frente a uma nova proposta de método na educação, como sugere o item quarto da “Declaração de Veneza”, a Noergopedagogia. A Noergopedagogia, junção das palavras gregas (nous, inteligência, ou atividade do intelecto ou da razão em oposição aos sentidos materiais, pensamento), em+ergon (em atividade), logos (razão), resultando no estudo da mente ativa e criadora e a própria palavra Pedagogia que tem origem na Grécia antiga, paidós (criança) e agogé (condução), obteremos a etmologia da palavra explicitando o sentido que representa para nossos dias uma visão ecossistemica das ciências humanas.

Este novo paradigma da noergologia não está isolado, acompanha o pensamento sistêmico que desponta das mentes de vanguarda que discutem uma nova proposta filosófica para o homem moderno. Humberto R. Maturana, Ph.D. em Biologia (Harvard, 1958)  e Francisco J. Varela Ph.D. em Biologia (Harvard, 1970), ambos chilenos, já discorrem sobre novas formas de ver a educação. Escreveram livros sobre “a biologia da cognição”, entre outras idéias sobre este assunto, eles criaram o termo “autopoiese” que já ultrapassou em muito o domínio da biologia. Hoje, ela é utilizada em campos tão diversos como a sociologia, administração, e muitos outros. Segundo Humberto Mariotti (1999), ao definir o termo “autopoiese”, afirma:

Autopoiese. Poiesis é um termo grego que significa produção. Autopoiese quer dizer autoprodução. A palavra surgiu pela primeira vez na literatura internacional em 1974, num artigo publicado por Varela, Maturana e Uribe, para definir os seres vivos como sistemas que produzem continuamente a si mesmos. Esses sistemas são autopoiéticos por definição, porque recompõem, de maneira incessante, os seus componentes desgastados. Pode-se concluir, portanto, que um sistema autopoiético é ao mesmo tempo produtor e produto.

Maturama e Varela compreendem a vida como um processo de conhecimento, esta é a sua tese central: “vivemos no mundo e por isso fazemos parte dele; vivemos com os outros seres vivos, e, portanto compartilhamos com eles o processo vital. Afirmam que se quisermos um mundo melhor precisaremos fazê-lo.

Edgar Morin, filósofo e sociólogo Frances, em 1999, por iniciativa da UNESCO, foi solicitado para apresentar um conjunto de idéias que representassem reflexões sobre a educação para o Século XXI, o resultado foi o livro. “Os Sete Saberes à Educação do Futuro”, como o autor mesmo se refere no prólogo, “pretende única e essencialmente, expor problemas centrais ou fundamentais que permanecem totalmente ignorados ou esquecidos e que são necessários para se ensinar no próximo século”.

Os sete saberes, segundo Morin (2002), resumidamente representam um olhar crítico e sugere o ensino e o educando como metas principais a serem atingidas: As cegueiras do conhecimento: o erro e a ilusão; Os princípios do conhecimento pertinente; Ensinar a condição humana; Ensinar a identidade terrena; Enfrentar as incertezas; Ensinar a compreensão; A ética do gênero humano

 

AS CEGUEIRAS DO CONHECIMENTO: O erro e a Ilusão

Sobre o erro e a ilusão, basicamente Morin sugere jamais afastar o erro do processo de aprendizado, primeiro conhecer o que é conhecer:

De fato o conhecimento não pode ser considerado uma ferramenta ready made, que pode ser utilizada sem que sua natureza seja examinada. Da mesma forma, o conhecimento do conhecimento, deve aparecer como necessidade primeira, que serviria de preparação para enfrentar os riscos permanentes de erro e ilusão, que não cessam de parasitar a mente humana Trata-se de armar cada mente no combate vital rumo à ilusão. É necessário introduzir e desenvolver na educação, o estudo das características cerebrais, mentais, culturais dos conhecimentos humanos, de seus processos e modalidades, das disposições tanto psíquicas quanto culturais que o conduzem ao erro e à ilusão”. 2002, pag. 14

A Noergopedagogia compreende o erro como ferramenta pedagógica, considera o aprendizado uma relação entre a experiência e a percepção do educando. Assim toda a informação recebida sofre inúmeras variações de significado, isso se dá porque são infinitas as interpretações que um indivíduo pode criar no seu sistema pensamento-cérebro.  Noergopedagogia compreende o homem na sua totalidade complexa. Percepção e aprendizagem são hoje objetos de estudo da Noergologia, que define o aprendizado como resultado de conexões neuronais programadas pelo sistema noérgico, particularmente pela imaginação conectando ingredientes formadores do sistema pensamento-cérebro. A Noergologia, ciência que deu origem a esta nova proposta pedagógica, propõem nesse processo a formação de novas memórias, que possibilitarão novas percepções efetivando, por conseguinte novos comportamentos.

As divergências perceptivas devem ser estudadas com afinco pelos novos pesquisadores das ciências cognitivas e deverão substituir os conceitos ultrapassados de “Déficit de atenção” que além de criar um abismo entre o ensino e a aprendizagem transforma o educando num ser portador de psicopatologias inexistentes como já afirmam muito neurologistas e psiquiatras organogênicos da vanguarda.

 

OS PRINCÍPIOS DO CONHECIMENTO PERTINENTE

A importância da desfragmentação dos conteúdos sugere que seja substituído por um modo capaz de aprender os objetos em seu contexto, sua complexidade e seu conjunto. Fica notório que Morin faz uma tentativa de aproximar o ensino da verdadeira natureza humana do educando, como lemos a seguir:

“É necessário desenvolver a aptidão natural do espírito humano, para situar todas essas informações em um contexto em um conjunto. É preciso ensinar os métodos (grifo nosso), que permitam estabelecer as relações mútuas e as influências recíprocas entre as partes e o todo, em um mundo complexo”. 2002, pag. 14

A Noergopedagogia defende a visão do ensino onde o educando é por si só um recurso notável, que detém potencialidades infinitas capazes de fabricar seus conhecimentos o tornando ativo e criativo, desenvolvendo-lhe a autonomia de construir seus objetivos e almejá-los. A complexidade do ser exige que ao desejar informá-lo de algo, deve-se entender que este indivíduo possui uma rede de memórias de todas as suas atividades mentais e que uma informação isolada, poderá não atingir os objetivos desejados, deve-se então entender como funciona seu cérebro e como se pode reprogramá-lo. Estudos sobre o hardware organogênico, isto é, sobre o sistema nervoso, ou seja, a máquina e suas funções são objetos de excelentes descobertas da Neurociência, porém, muitas vezes contaminados de passivismo. A Neurociência descobriu que o cérebro pode ser programado. Existem milhares de neurocientistas, ou seja, de especialistas no hardware. Existem, todavia, pouquíssimos noergologistas, ou seja, de especialistas na programação noérgica. A Noergologia cumpre a tarefa da correção de explicações passivistas para várias descobertas do hardware. O Neurocientista é um especialista no hardware, o Noergologista é um especialista no software - usando uma metáfora.

 

ENSINAR A CONDIÇÃO HUMANA

O terceiro saber sugere que o ensino atenda essencialmente o aprendizado sobre a condição humana:

“O ser humano é a um só tempo, físico, biológico, psíquico, cultural, social, histórico. Esta unidade complexa da natureza humana é totalmente desintegrada na educação por meio das disciplinas, tendo se tornado impossível aprender o que significa ser humano”. 2002, pag.15

Este saber reflete a proposta da Noergopedagogia que sugere novos conteúdos nas grades curriculares dos cursos de formação de educadores, tais como, análise paradigmática e Introdução à Noergologia, revisitando os estudos sobre os sistemas fisiológicos do cérebro (órgãos do sentido, neurônios, neurotransmissores, lobos cerebrais, etc.), suas funções e particularidades, à luz dos conhecimentos sobre o cérebro (ate então ignorados nos cursos de formação de educadores), observar a nova visão de interface pensamento-cérebro. A Neurociência já havia descoberta que o cérebro pode ser programado. Noergologia descobriu como programá-lo, como utilizar sistemicamente as atividades noérgicas para criar e processar a organização de informações, ou seja, a aprendizagem.

 

ENSINAR A IDENTIDADE TERRENA.

O quarto saber se refere a ensinar a identidade terrena, o destino do gênero humano, o saber de que a Terra já foi um continente único, saber que a Terra é um planeta frágil, merece cuidados e precisa de sustentação e respeito. Ensinar que não existe um destino negro para o planeta e sua população, ensinar sim, que nos determinamos o futuro do planeta pelas escolhas do presente. Somos autores do nosso destino dentro e fora de nós.

 

ENFRENTAR AS INCERTEZAS

Enfrentar as incertezas é o quinto saber, sugere o abandono das concepções deterministas:

“Seria preciso ensinar princípios de estratégias, que permitiriam enfrentar os imprevistos, o inesperado e a incerteza, e modificar seu desenvolvimento, em virtude das informações adquiridas ao longo do tempo. É preciso aprender a navegar num oceano de incertezas em meio a arquipélagos de certezas”.

“A fórmula do poeta grego Eurípedes, que data de vinte séculos, nunca foi tão atual: “o esperado não se cumpre, e ao inesperado um deus abre o caminho” 2002 pag. 16

Princípios de estratégias, esta incluso no método Noergopedagógico, quando se sugere a prática de jogos interativos, games, etc., bem como, o uso das novas tecnologias em favor da aprendizagem, desenvolvendo a criatividade, iniciativa, memória, novas memórias, comportamento ativo e participativo, convivência em grupo, entre outras.

 

PERCEBER A COMPREENSÃO

Nosso cérebro é único. Nossas percepções são rigorosamente únicas e irrepetíveis. Em conseqüência, o “outro” é rigorosamente outro, diferente, único, igualmente exclusivo. Precisamos compreender que essa democrática diversidade de sistemas noérgicos é um fator de enriquecimento e de vitalidade. Essa visão possibilita-nos a conquista de um estado de fruição da diversidade humana, algo além da mera compreensão. Ou seja, passaremos a degustar a essência da democracia que é a diversidade de etnias, de religiões, de grupos políticos, científicos, organizacionais e, em conseqüência, a abolição de rótulos estigmatizantes, incluindo aqueles que eram incentivados pelas teorias do PPP – Paradigma do Passivismo Psíquico, tais como os psicodiagnósticos compulsórios, que devem ser banidos com a evolução cultural da humanidade.

Estes princípios constituem o sexto saber, segundo a proposta de Morin, ensinar a compreensão entre tantas diferenças. A Noergopedagogia atende este fundamento quando propõem que o processo de ensino-aprendizagem seja feito de forma parceira, onde o professor é um amigo, um mediador, o ensino e a aprendizagem caminham de maneira harmoniosa e natural, não há inferiores nem superiores, há inteligências desenvolvendo conhecimento, ampliando conexões neuronais. A Noergopedagogia defende o princípio do conhecimento compartilhado.

 

A ÉTICA DO GÊNERO HUMANO

O sétimo saber trata da ética do ser humano, do ensino da cidadania em sua mais plena concepção, do ensino da democracia:

“A educação deve conduzir a “antropo-ética”, levando em conta o caráter ternário da condição humana que é ser ao mesmo tempo indivíduo/sociedade/espécie. Nesse sentido a ética indivíduo/espécie necessita do controle mútuo da sociedade pelo indivíduo e do indivíduo pela sociedade, ou seja, a democracia; a ética indivíduo/espécie convoca ao século XXI, a cidadania terrestre”. 2002, pag.17

Morin (2002) apresentou uma profunda reflexão sobre os problemas e soluções para o ensino do século XXI, deixando para pesquisadores, a concretização de tais metas. A Noergologia oferece a Noergopedagogia, que vem possibilitar avanços para atender a demanda do terceiro milênio – a Sociedade da Informação –, não se detendo em dificuldades naturais do percurso devido às resistências de mentes fechadas (melhor reacionários). Ela simplesmente sabe que o ensino vai ser elevado ao nível que merece quando os cursos de formação de educadores se movimentarem para corajosamente mudar o velho paradigma (não seria trocar de paradigma?) e recriar (descobrir) novas maneiras de ensinar (fortalecer a aprendizagem) que atenda as reais necessidades da criança que já não aceita nada de forma imposta, da criança que tem a informação na velocidade da internet, que interage com outros do outro lado do mundo pelo simples apertar de um botão e possui um raciocínio amplamente desenvolvido e exigente.

Estes pensamentos são compartilhados por muitos estudiosos sobre a educação, porém, a Noergologia oferece uma proposta pedagógica capaz de transformar a sala de aula num ambiente prazeroso e de alto rendimento cognitivo, onde se potencializará as faculdades do aprendiz devolvendo a ele o lugar que lhe é de direito, o “foco principal e autônomo do processo”.

 

Denize T. Sucharski, 2009

Denize Teresinha Sucharski – Pedagoga, Esp. Em Noergopedagogia do Instituto de Noergologia da Unibem, Curitiba/PR

REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Bettoni, J.D. Revolução de Paradigma na Psicologia. Curitiba: Alexandria, 1999.

Lent, R. Cem Bilhões de Neurônios: Conceitos Fundamentais de Neurociências. São Paulo: Atheneu, 2005

Mariotti, H. Autopoiese,  cultura  e  sociedade. São Paulo. Geocities, 1999

Morin, Edgar. Os sete saberes necessários à educação do futuro. Tradução: Silva e Sawaya. Ed. 5ª. Cortez. São Paulo, 2002.


Tags: Noergologia, Noergopedagogia, Pedagogia, Educação, Paradigma, Professor, Aluno


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